Todas as manhãs de segunda a sexta-feira, Shilpi Chotrani pedala de sua casa, na cidade espanhola de La Línea de la Concepción, até Gibraltar. É um trajeto curto, mas que exige a travessia de uma fronteira internacional.
Gibraltar, um Território Ultramarino Britânico com cerca de 40 mil habitantes, mantém controle de fronteira para quem entra e sai.
Isso significa que, durante os horários de maior movimento, pela manhã e no fim da tarde, quando aproximadamente 15 mil espanhóis atravessam diariamente a fronteira para trabalhar no território, formam-se longas filas.
“O fato de existir uma fronteira entre nós é algo sem sentido”, afirma Chotrani, que trabalha na área de recursos humanos de uma empresa de transporte marítimo e turismo em Gibraltar. “Não acredito que uma cerca deva separar pessoas de um lugar para outro.”
Ao fundo, o famoso Rochedo de Gibraltar, com cerca de 426 metros de altura, aparece envolto pelas nuvens da manhã. Localizado no extremo sul da Europa continental, está a apenas 14 quilômetros do Marrocos, exatamente onde o Oceano Atlântico encontra o Mar Mediterrâneo.
Trata-se de um local marcado por batalhas militares, disputas de soberania e por um bloqueio de 13 anos imposto pela Espanha.
No entanto, a partir de 15 de julho, uma mudança histórica está prevista: a remoção da fronteira física, permitindo a livre circulação entre Espanha e Gibraltar.
Essa medida faz parte de um acordo cuidadosamente negociado entre a União Europeia e o Reino Unido após o Brexit. Como Gibraltar compartilha uma fronteira terrestre com a União Europeia, sua situação tornou-se um dos maiores desafios nas negociações posteriores à saída britânica do bloco.
“Será um enorme passo para frente, tanto para os espanhóis quanto para os britânicos”, diz Chotrani. “Todos nós que moramos em La Línea acreditamos que essa é uma excelente ideia. Isso deveria ter acontecido há muito tempo.”
Gibraltar possui uma das maiores rendas per capita do mundo. Já La Línea de la Concepción e sua região figuram entre as áreas economicamente mais vulneráveis da Espanha.
O desemprego, elevado em toda a região da Andaluzia, chega próximo de 30% nessa cidade. Por isso, espera-se que o fim da fronteira gere importantes benefícios econômicos, facilitando a circulação de pessoas e estimulando o desenvolvimento da região.
“Isso é histórico. Temos uma cerca de fronteira desde 1908”, afirma Juan Franco, prefeito de La Línea de la Concepción, destacando a forte dependência econômica da cidade em relação a Gibraltar.
“É preciso entender que, para uma empresa média desta cidade, cerca de um terço da receita vem de clientes localizados em Gibraltar.”
Após uma década de incertezas sobre o futuro da relação entre Gibraltar e Espanha depois do Brexit, Franco acredita que “essa solução para o Brexit acabará trazendo efeitos positivos para nós.”
Os moradores de Gibraltar foram amplamente contrários ao Brexit: 96% votaram pela permanência na União Europeia no referendo de 2016.
Essa posição refletia tanto o receio de que a saída fortalecesse as reivindicações espanholas sobre o território quanto a preocupação com os impactos econômicos, já que Gibraltar mantém fortes relações comerciais com a União Europeia, especialmente nos setores de jogos online, transporte marítimo e serviços financeiros.
Após anos de negociações entre Espanha, União Europeia e Reino Unido, a solução encontrada foi alinhar Gibraltar à união aduaneira europeia e ao Espaço Schengen, que permite a livre circulação de pessoas.
Com isso, viajantes provenientes de países fora do Espaço Schengen, como o Reino Unido, passarão a apresentar seus passaportes às autoridades de Gibraltar e da Espanha diretamente no aeroporto e no porto do território.
O Ministro-Chefe de Gibraltar, Fabian Picardo, afirmou que as novas regras — que ainda dependem da aprovação formal dos Parlamentos britânico e europeu — representam “uma enorme transformação” para Gibraltar.
“Uma das características que marcaram as últimas oito gerações de gibraltinos foram justamente as restrições na fronteira.”
Segundo Picardo, o acordo proporcionará “total fluidez na circulação de pessoas e mercadorias” entre Gibraltar, Espanha e União Europeia.
O principal benefício econômico esperado é o aumento no fluxo de visitantes.
“As empresas em Gibraltar poderão receber muito mais pessoas, sem que elas sejam desencorajadas pelas longas filas na entrada ou na saída do território.”
A soberania de Gibraltar continua sendo motivo de divergência entre Reino Unido e Espanha. Um dos episódios mais marcantes ocorreu em 1969, quando o ditador espanhol Francisco Franco determinou o fechamento completo da fronteira, bloqueio que só foi encerrado em 1982, anos após sua morte.
Para Picardo, o novo acordo representa exatamente o oposto daquele período.
“Isso será enorme para as relações humanas, para os negócios, para os trabalhadores que cruzam diariamente a fronteira. Representará um novo começo na relação entre Gibraltar, Espanha e União Europeia.”
O ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, também classificou o acordo como “uma nova era” para Gibraltar.
O acordo, contudo, também traz mudanças importantes.
Os produtos comercializados em Gibraltar deverão obedecer às normas da União Europeia, algo que não era obrigatório até então.
Além disso, como Gibraltar não possui Imposto sobre Valor Agregado (IVA/VAT), será criado um novo imposto sobre transações comerciais, substituindo o atual imposto de importação. A alíquota começará em 15%, aumentando gradualmente para 17%, além da elevação de impostos especiais sobre determinados produtos.
John Isola, diretor da Anglo Hispano Company, responsável por diversos restaurantes e bares em Gibraltar, afirma que o setor empresarial recebeu o acordo com alívio, principalmente porque evita a criação de uma fronteira rígida após o Brexit.
Segundo ele, trata-se de “um bom compromisso”, capaz de atrair mais visitantes e estimular os negócios.
Ao mesmo tempo, Isola reconhece certa preocupação com as novas exigências regulatórias e tributárias.
“Para quem importa mercadorias, todo o processo muda completamente em termos da documentação necessária.”
Ele também observa que cumprir os padrões exigidos pela União Europeia será um desafio adicional para empresas que importam produtos do Reino Unido ou de outros países fora do bloco europeu.
Enquanto isso, moradores de Gibraltar e de La Línea já começam a se acostumar com a nova realidade. Nas últimas semanas, máquinas têm trabalhado durante a noite para remover a antiga cerca de fronteira, preparando o território para o dia 15 de julho.
Depois de uma história marcada por conflitos e divisões, Gibraltar está prestes a iniciar um novo capítulo — que poderá redefinir sua relação com a Espanha, com a União Europeia e com o restante do mundo.

